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auroras – pequenas pinturas, mostra organizada pelo artista Bruno Dunley e pelo idealizador do espaço Ricardo Kugelmas, inaugurou o espaço reunindo 75 trabalhos de 26 artistas, realizados em pequeno formato entre 1983 e 2016. A mostra foi dividida em duas partes consecutivas. A opção pelo pequeno formato revela uma condição intima e direta com a poética desses artistas. A escolha dos trabalhos, realizada conjuntamente com cada artista, privilegiou o diálogo de ateliê - local de articulação do pensamento plástico onde o trabalho reflete sobre si mesmo, suas condições e possibilidades Com trabalhos de diferentes épocas, auroras –  pequenas pinturas propõe uma reflexão de cada artista sobre a própria obra e com as obras dos outros participantes além de oferecer um amplo panorama da pintura brasileira.

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auroras – small paintings, exhibition organized by artist Bruno Dunley and auroras's founder Ricardo Kugelmas, launched the space, bringing together 75 works by 26 artists, made in small format between 1983 and 2016. The exhibition was divided in  two consecutive parts. The choice of small format reveals an intimate and poetic quality of these artists's work. The selection of works, made in concert with each artist, reveals a dialogue the takes place in the studio- an articulation of the potential for a work to reflect upon itself, its conditions and possibilities. With works spanning three decades, small paintings offers an analysis of each artist on his own work and the works of other participants, and shows a wide panorama of small format contemporary Brazilian painting.

 

Alvaro Seixas
Ana Prata
Antonio Dias
Antonio Malta Campos
Dudi Maia Rosa
Fernanda Gomes
Gabriela Machado
Leda Catunda
Lucas Arruda
Rodrigo Andrade
Rodrigo Bivar
Sérgio Sister
Yasmin Guimarães

 

 


I –  a visita

No fim dos anos 80, Ronaldo Brito falando sobre a Bienal, comentou sobre a diferença entre a obra existindo na origem e neutralidade do ateliê, lugar na qual é criada e ao qual legitimamente pertence, em comparação a quando é vista instalada no prédio da Bienal. Nesta nova condição, segundo Brito, a obra se modificaria e todo o entorno causaria uma séria distorção no entendimento da poética originalmente concebida pelo artista. A observação pareceu na época um excesso de purismo por parte deste curador, no entanto hoje, diante da importância que se passou a dar ao curso da carreira do artista, tal observação, pode ser agora reconsiderada. Diante da dificuldade de se avaliar, de súbito, o coeficiente artístico da produção, tal como pensado por Duchamp, deste ou daquele arista, por alguma razão convencionou-se contar o número de exposições presentes no currículo. Curiosos critérios envolvendo quantidades, diferenças entre espaços privados e públicos, sendo esses últimos mais considerados que os primeiros ou presença no circuito nacional ou internacional, prestam supostamente testemunho de qualidade. Como se que tal método pudesse realmente letigimar e se sobrepor ao valor artístico, de caráter extremamente subjetivo, que é intrínseco a obra.

Assim as obras de arte vagam ora por galerias, muito brancas e sempre limpas, cujos espaços inexoravelmente induzem a uma visão mercantilizada onde as melhores intenções tendem a naufragar no mar da precificação geral de tudo, ora vagam por museus grandes e bons e dentro deles as mesmas intenções sentirão o peso da institucionalização distorcendo-se ao mesmo passo em que se historificam.

Na contramão do momento, o auroras surge oferecendo o espaço residencial para acolher exposições organizadas entre amigos para amigos. Ainda que comercializáveis, as obras ganham espaço sob calor da escala do ambiente doméstico, ligado aos fazeres cotidianos, tais como acordar ou ir dormir, sentar, ler e pensar ou mesmo se esconder, para sentir-se protegido na intimidade do lar. Uma espécie de caráter afetivo parece abraçar as obras num gesto cálido e sem pressa. São vistas as vezes, quando alguém vem. Alguém que toca a campainha e vai entrando, desce a escada e passa pela biblioteca, sem perceber, já está na exposição. Repara no janelão e na piscina vazia lá fora, dai se volta deparando com algumas, percebe mais e acha as outras e a seu tempo vai entendendo. Gosta de umas, doutras, não gosta tanto, prefere umas, fica preferindo e logo mais voltar a perceber a casa, é uma visita. Deste modo, os trabalhos são olhados com a atenção dividida por um sujeito que vai aos poucos se sentido a vontade, tal como qualquer pessoa numa primeira vez, na casa de alguém.

As hierarquias entre as obras de artistas mais conhecidos e iniciantes é abrandada a medida em que se misturam na parede da sala que agora habitam. Há um clima harmônico decorrente do fato da exposição ser pequena assim ninguém se cansa e há tempo pra olhar, preferir, perceber. Fatores domésticos protegem a produção que não esta mais no ateliê e sim na casa, na sala, ao pé da escada, no topo dela, no caminho que leva aos quartos. Habitam, co-habitam, hora de ir embora ...

II – A pequena escala como ferramenta das grandes invenções,

A velocidade é a melhor amiga do trabalho pequeno. Não vai precisar muita coisa, nem mesmo tempo e qualquer lugar tá valendo pra realizar o trabalhinho, tal como, depois, com certa displicência se diz — fiz um trabalhinho... Com uma ideia em curso, o artista inicia algo sem precisar certeza definitiva de intenção. Uma ideia informe, tipo sugestão, vai na velocidade se concretizando e afinando o pensamento ao mesmo tempo. Surpresas acontecem, mais vezes nesses pequenos do que nos grandes, nestes, há muito material pra perder e muito mais risco se errar, na escala maior a relação de tempo é outra e muito mais coisas precisam ser previstas antes de começar.

Partindo de uma concepção inicial imperfeita abrem-se portas para o inesperado, sentidos novos se apresentam sendo admitidos ou rejeitados. Na pior das hipóteses sempre é possível desistir, descartar pra recomeçar sem que maiores perdas sejam sentidas. Acréscimo de liberdade decorrente desse processo, por seu carater de descomprometimento é quase palpável.

A natureza da criação de toda e qualquer imagem envolve escolha. Esta escolha, pode também ser entendia com abandono, daquilo que nãoficou ou que nem veio, em favor do que vai se formando. Toda imagem gera significado, seja pelo gesto, pela forma ou cor. Contendo vazios ou cheios, símbolos abstratos ou signos fechados, figuração, a subjetividade transborda os limites das dimensões físicas.

Desta maneira o trabalho de pequena dimensão configura-se talvez como a mais dinâmica ferramenta para descobertas e grandes invenções. Não podendo ser considerado truque, outrossim recurso valioso, um campo infinito para experimentação.