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Flávia Vieira, Pandã ,  2018

Flávia Vieira, Pandã, 2018

Pandã


O trabalho com a lã faz parte do cotidiano de Flávia Vieira (1983, Portugal). Para construir as tecelagens que vem produzindo há alguns anos a artista necessita de tempo, disciplina e rigor técnico. Criadas ponto-a-ponto, de maneira artesanal e manual, e muitas vezes utilizando-se de pigmentos naturais, essas obras frequentemente trazem tecidas figuras baseadas em iconografias das pinturas corporais de povos indígenas brasileiros, como os Karajá e os Asurini. 

Em “Pandã”, instalação que ocupa a Sala de Projetos do auroras, Flávia discute o lugar da decoração no campo das artes visuais ao igualar hierarquias entre os materiais e ao misturar referências ditas “eruditas” e populares.

No século XX, as discussões acerca das dissonâncias e dos pontos de contato entre arte e artefato foram tema de interesse tanto da antropologia quanto das artes visuais. Parte considerável das experimentações dos movimentos de vanguarda do século XX caminharam no sentido de desfazer essas barreiras e aproximar o fazer artístico da vida cotidiana. Nessa longa trajetória, o corpo sempre esteve presente e, muito antes do advento da performance como campo, foi a moda que efetivamente conseguiu popularizar a esfera das artes visuais e trazê-la para um contexto midiático. Uma das pioneiras dessas ações foi Sonia Delaunay, cujas experimentações radicais na década de 1920 resultaram na utilização indiscriminada de padrões geométricos em vestidos, cenários e em suas pinturas, formando uma espécie de “estamparia total”. 

Neste projeto, Vieira se inspira em parte do trabalho da artista ao replicar a mesma imagem nas duas tecelagens e nas cerâmicas postas à frente delas, criando uma relação de pandã. Não por acaso, cada coisa ganha seu lugar: se o processo de desenvolvimento dessas tecelagens resulta em objetos únicos e passíveis de fetichização, as cerâmicas que Flávia cria nascem de um molde facilmente replicável e em um processo muito mais simples. Dispostas no espaço, as peças tornam-se parte de um só organismo, onde importa mais o jogo entre visão e ilusão, e o deslocamento de sentido causado pela transposição desses desenhos para um viés decorativo, do que o valor artístico que cada peça possa ter individualmente.

Processo, materiais e resultado se imbricam neste trabalho e, por mais que não estejam totalmente evidentes para o espectador, estão tão enredados quanto os pontos das tramas que formam esses tecidos.

Thierry Freitas 

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