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 Anitta Boa Vida, 2015,  Nossa Senhora da Boa Vida  foto: Ding Musa

Anitta Boa Vida, 2015, Nossa Senhora da Boa Vida foto: Ding Musa

Ora que melhora

Anitta Boa Vida

 

 

Santa Anitta, na alegria e na tristeza

por Lisette Lagnado

São poucos os artistas conhecidos tanto pelo primeiro nome como pelo sobrenome. Quando cheguei em 2014 no Rio de Janeiro para morar na cidade superlativa de todos os males e esplendores, Anitta já vestia seu apelido de boa vida, já era umasanta da boa hora, da boa libertinagem, da boa brisa e da boa viagem. O quanto uma personalidade pode influenciar o juízo emitido sobre seu trabalho criativo? No caso presente, quase tudo. Não há distância entre sujeito e ação. Anitta seria a genuína filha da geração da zona sul carioca, que passou a juventude flanando entre a praia de Ipanema e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, não fosse uma desconcertante ironia na maneira de ver e expressar o mundo. Tão ou mais voyeur que Alair Gomes (seu pai espiritual, por assim dizer), o gênero humano é o assunto principal, esquadrinhado em tipos sem qualidades, porém repletos do charme e suavidade de comportamentos musicais. Retratos (2015-2017) são crônicas visuais que condensam personagens afetivos tomados em cenas domésticas, mas posando para uma história destinada à tragédia do esquecimento. Caso tivesse nascido no tempo de Proust, Boa Vida ilustraria nosso tempo que escorre em tagarelices nas mídias sociais, likes e memes de uma mundanidade definitivamente vã. O humor, no entanto, acaba sendo sua ácida salvação do desespero, o signo que atravessa cada imagem com uma frase lancinante, para sinalizar um nível mais profundo que consegue erguer-se em lema e luta contra mazelas como o racismo e o patriarcado. Afinal, para alguém tão cético, o anonimato que rege a privacidade da era digital só pode ser de fachada. Sem opção contra uma reputação de ícone maldito, a Nossa Senhora da Boa Vida vem anunciar também a incerteza do cânone e as virtudes de uma Arte ainda a ser decifrada...  

 

 

lá onde o mais próprio é o mais estranho e impessoal, o mais próximo é o mais remoto e indomável

por Ulisses Carrilho

Muito embora faça-se presente de maneira explícita nos trabalhos "Nossa Senhora da Boa Vida" (2015) – santa que integra esta instalação –, na série de fotografias "Dê Gudi Laife" (2013) ou no sobrenome eleito pela artista na sua vida adulta, o modus vivendi boa vida apresenta-se em outros de seus trabalhos realizados ou projetos. Estes frequentemente lançam mão da prática integrada de escrita e desenho em cadernos, papéis avulsos, isqueiros, sacos plásticos, capas de revistas e outros diversos aparatos de publicidade e mídias de consumo massivo, bem como paredes da cidade – Eu dei pra ele (2015). Vale então ler os desenhos e absorver a forma dos textos – a artista desenha discursos. Muito embora Ora que melhora seja um projeto site-specific, esta metodologia de trabalho soa recorrente nas estratégias eleitas por ela: Anitta Boa Vida toma partido do espaço para salientar uma característica arquitetônica invisível – em Um Microfone na Torre (2013-2016), tratava-se de uma dinâmica acústica, aqui trata-se de uma vocação da sala para ser uma pequena capela, remontando ao uso domiciliar do imóvel – por meio de uma operação simples, orientada por uma ordem conceitual, menos que pela materialidade, caráter escultórico ou discussão no campo estrito da história da arte. Anitta Boa Vida prefere circular pelo campo da cultura visual, onde as imagens apresentam-se como fatos estéticos cotidianos, impregnados de pulsões, causa e efeito da força que move o sangue em nossas veias ou nos faz cair em sono profundo, a desconhecida potência que, em nosso corpo, regula e distribui tão suavemente a tibieza e dissolve ou contrai as fibras dos nossos músculos. (AGAMBEN, Giorgio. Profanações)

 

 

por Caroline Valansi

Anitta, artista zona sul do Rio de Janeiro, depois de tanto pixo e sexo, é canonizada nossa senhora da Boa Vida. Padroeira das artistas e das mulheres faceiras. Amém e Amem Muito!

 

 

por Maria Moreira

Anitta tem um corpo pequeno natural das frestas, um quase espaço, um quase nada lhe é lugar. Anitta vai brilhar? Que brilho cabe na atenção do olho sob o sol a beira-mar? Ivo Ito dizia que na praia não se pode esconder nada, quase nu, ficava inquieto. Se matou com gás de cozinha. Surpreendeu a decisão — se o tempo pudesse dobrar a si, no estalo do nosso desejo, Ivo Ito estaria nas fotos de Anitta. Dorso nu, coração em abismo. O olho da fresta, olho de Anitta, escreve. Retira pele da palavra que sobra nos atropelos do dia. Palavras de ordem, palavra em desordem, lambuzada de ruas. Antonio Manuel ficou nu no MAM. Queria casa. O museu é a casa? O corpo-fresta de Anitta acolhe monumentos-carimbos à sombra de sua nudez. A medida de todas as coisas — a nudez humana. A nudez menina virgem mãe do menino. Querer o impossível. A serpente na Lua. Peça, na altura dos olhos